segunda-feira, novembro 26, 2007

Ódio

Apática a tudo e a todos, simplesmente ela não teria como desistir de algo que já não mais existe. Seria de uma forma profunda que tudo se acabaria pelo silêncio e pelos longos dias sem respostas de um e de outro. Ela rezava para que não criasse ódio, para que algo de bom, de tudo que houve, ainda pudesse coexistir em seu peito e suas memórias. Ódio? Cristina não queria sentir ódio dele, jamais. Não por ainda gostar demasiadamente, não por sentir que as lembranças ruins e o sofrimento, que ainda havia na sua vida superassem as sensações gostosas e as gargalhadas estupendas. Não era nada daquilo!
Cristina, apenas, não queria inseri-lo na sua lista de pessoas odiadas, aquela mulher não gostaria de saber o mal frio que sua parte tenebrosa poderia fazer com ele. Cristina queria calar a tudo e deixar-se esquecer. Deixar que ele não a imaginasse como uma tola e que a próxima mentira ela entornaria como a cachaça amarga que estava acostumada a beber com aquela situação.
Cristina queria se livrar de um tormento de não mais ser amada, querida, desejada, porque tudo o que falava a ela, soava como falsidades que ele mesmo gostaria de acreditar, mas não conseguia. Hipocrisia, Cristina? O mundo tem muito disso.
Ódio, Cristina? O coração dela já transbordava isso.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Chove no jardim de Veneza




Ela está sentada naquela balaustrada, onde as águas verdes são os transeuntes.

Ela está sentada esperando a tarde cair, se esvair e morrer.

Ela espera o beijo da brisa.

Ela espera a chuva fria e a sensação de solidão a invade neste novembro descompassado.

Chove no jardim de Veneza e em seu coração.


Vivi

terça-feira, novembro 20, 2007

Cecília Coragem


Para A Minha Amiga de todo o sempre,

Uma homenagem ao dia do seu aniversário, que já passou, mas acredito que homenagens devem ser prestadas para todo o sempre!

Para Cê, com muito amor e carinho,


Da sua amiga Vivi!



Tens olhos enevoados?
Ela não tem!
Vês a vida passar em branco?
Ela faz as cores da vida!
Fazes chorar os olhos de quem te ama?
As rochas sorriem quando ela passa!
Abaixas a vista para os maiores?
Ela os olha de frente e diz,
Diz a verdade ao mundo inteiro,
Ela ama, alegra, festeja, grita, chora, brinca, sorri, canta...
Ela é um poço de carinho em um olhar cativante.
Ela vem em concentrações intensas de amizade,
Ela faz, vira, mexe e reza.
Ela é tudo,
Se ela for, você será o nada.
Um vasto nada vagueando pela cidade do desalento.
Ela é amada por tudo e todos.
Tens um beijo preso na garganta?
Ela não tem!
Ela é Cecília, que atravessa tudo e volta intacta!
Para ela, a vida gargalha e dá passagem!
Perante ela, tudo se move, todos se encolhem.
Ela é Cecília Coragem!


Vivi

segunda-feira, novembro 12, 2007

Em breve, neste blogger:

- A vingança das mulheres.

- Romances insólitos: um batom, uma navalha e um retrato partido.

Ambos em capítulos!

Vivi e

terça-feira, novembro 06, 2007

Os dois lados da mesa


É problema, é resolução, é tempo curto, é dinheiro, é conta pra pagar, é sentimento junto com razão, formando um turbilhão de coisa enlinhada e que não se desgruda nunca, é medo, é dúvida, é falta, é gana, é físico... É tudo. É tudo. E é só uma pessoa pra tomar conta disso tudo, e essa pessoa sou eu. Mas estou tentando levar a vida com pelo menos um sorriso no rosto, pra que a vida não me engula e eu não termine como uma pessoa seca, amarga, dura por dentro, para que as pessoas não me olhem com medo. Estou tentando conciliar problema com solução, sentimento com razão. Estou tentando sobreviver de todo jeito e de todas as formas e se mesmo assim não for possível eu conseguir, eu largo tudo de mão, vou embora pra algum lugar onde eu não conheça ninguém e ninguém mesmo, ninguém nessa face da terra que eu conheci saiba onde eu estou. Para que, pelo menos, eu tenha a sorte de ser feliz sozinho.

Pelo menos você tem o luxo de escolher como vai morrer.

Se é que eu vou morrer.

Você vai! Isso é tão certo quanto o apagar dessa vela, dentro de poucos instantes.

Isso é o que você imagina. As velas não morrem. Descansam apenas a chama que, um dia, podem aparecer, reacender em brasa viva e cheia de vida.

Que vida se pode ter nesse calafrio?

A vida de um futuro não deposto.

Que futuro pode não estar deposto?

O futuro que você quiser criar.

Eu não sei... Acho que a vida só nos encara quando estamos de frente para os abismos em que ela nos coloca.

Escolha!

Quero três!

Três saindo do forno.

Absurdo isso!

O que é absurdo?

Você está fazendo a coisa direito?

Lógico que sim! Quantos anos você acha que eu tenho? Doze?

Não... Mas... Bom, deixa pra lá.

Segue!

Já? Tão rápido?

Acho que você não está entendendo direito as coisas.

Estou sim, você é que não está enxergando.

Enxergando? E como hei de enxergar algo que não existe?

Não vês além da tua visão?

Ainda não cheguei a esse ápice de heroísmo nas cartas.

Pois saiba que eu cheguei.
É... Esqueci que não tem nada de doze anos por aqui.

Ah! Johnnie Walker.

Hein?

Nada. Estou lembrando da casa da Juju.

Juju?

É. Casa da dona Juju. Aquela morena de pequenos seios aveludados.

Você freqüentava aquilo?

LÓGICO! Casa de alto padrão. Aliás, alto estilo e padrão.

Aquilo não tinha nem estilo, nem muito menos padrão!

Claro que tinha! Era mais suntuoso que o quarto da Teté.

Não fale assim da Teté!

Como não? Aquele perfume era intragável. O jeito que ela se embolava no lençol depois de uma noite de sexo era como de uma hiena se cobrindo com a carniça.

Homem... Francamente! A Teté era um doce!

Não deixava de ser hiena!

E a Juju? Começamos pelo nome: J-U-J-U! Isso lá é nome de prostituta?

Juju era simples, humilde, discreta, carinhosa, meiga...

Isso não muda nada.

Como não muda? Juju não era uma vagabunda qualquer. Ela tinha coração.

Mais uma carta!

Toda sua!

A Teté fazia o que tinha que fazer. Só isso. Era paga para aquilo e fazia muito bem feito.

Juju tinha calor entre as coxas.

Teté tinha calor por todo o corpo. Aliás, a chama que nunca se apagava era o corpo de Teté.

Calor e Teté: duas coisas que não combinam.

Juju e cabaré: dois nomes e mundos incongruentes.

Imundo!

O que?

Imundo, este jogo está imundo hoje!

Só porque eu estou falando que Juju e cabaré...

Não, sua besta! O jogo está imundo porque não estamos embaralhando direito.

Tudo está mexido.

Hum! Lembrei dos ovos mexidos da Ametista. Logo que nos mudamos para cá, eu e a Márcia contratamos a Ametista. Aqueles ovos estão até hoje recendendo no meu paladar.

Uma coisa que tenho que concordar: a Ametista cozinhava muito bem!

Não só cozinhava muito bem, mas arrumava, passava, limpava... Tudo muito bem!

Era?

Era. Ué?

Nada.

Como nada? Que cara foi essa?

A expressão de nada!

Você bate e diz: nada?

Velho chato, você, viu?

Chato? Chato, eu?

Sim! Você!

A noite foi postergada por mais umas horas, mais uns meses e o que se falava, foi calado. Usurpado o som, já não se tem a menor noção a que horas as batidas ecoam no mundo. Em um mundo onde os dois já não se vêem. Não mais se encontram apenas a história de Juju, Teté, Ametista e seus ovos mexidos permanecem imóveis e intactas em algum canto, onde nunca ninguém encontrou a verdade. E talvez, esta mereça ser deixada de lado, posta como a chama que se funde com a parafina, que escorre, transborda e suja o mármore do que restou de duas histórias.


Vivi

quarta-feira, outubro 24, 2007

Janelas


Vês essas janelas?
Olha onde elas darão.
Universos gigantescos se abrem para todos.
Cada qual no seu mundo observando os ângulos diversos.
Vês essas janelas? Cada qual te revelará um lado diferente.
Veja através dessas janelas.
Dentro de cada recinto delas
Haverá uma porta a ranger,
Uma criança a chorar,
Um homem a bater,
Uma mulher a gritar,
Um relógio a parar.



Vivi

quinta-feira, outubro 18, 2007

O paradoxo da vida em comunidade


Pretendemos conviver em um mundo vasto e limpo. Necessitamos de amor, carinho, afeto, ternura, compaixão, piedade, solidariedade e insistentemente amor. A princípio tudo parece fácil: não procuramos nossa comida, o ar que respiramos não é recolhido pelas nossas narinas, o sangue que corre em nossas veias é de outra pessoa, a temperatura é sempre confortável aos nossos frágeis ossos e pele em formação, nossos olhos permanecem fechados e podemos continuar nesse mundo fantástico por toda a vida, mas em nove meses tudo será diferente.

O ar, que antes não era nosso, viola nossos pulmões e em um arroubo de brutalidade descomunal desce em nosso aparelho respiratório e damos o primeiro brado retumbante. O grito explode imenso e essa dor primordial nos acompanhará por toda a vida. Eis a vida, meus caros! Ei-la tripudiando de nossos corações, que dizemos ser fiéis, sinceros, castos, fraternais, amorosos, mas que de nada adiantará se o coração não é aquele dos desenhos: simetricamente perfeito com a cor vermelha. Esse músculo que pulsa carregará durante sua vida inteira mais ódio e raiva do que você mesmo cogitará. E não adianta dizer que não guarda rancor: na primeira oportunidade que tiver você, certamente, se vingará daquele que lhe apedrejou. Mesmo que a pedra seja um pedregulho encontrado no sapato, em seu pior dia sádico.

E diante disso, pretendemos viver felizes por todo o sempre, até que a morte nos separe daquela dor do primeiro átomo de oxigênio que nos estuprou os pulmões. E desejamos casar e ter filhos, para repassar para eles tudo o que não fomos, ou não somos: pessoas que tiveram ou têm frustrações, por tantas vezes infelizes, odiadas, amadas e queridas; e talvez nossos filhos não incorram no nosso mesmo erro. Já diz a propaganda: “Faça a sua parte”. Nossos filhos convivem no mesmo ambiente que o nosso. A imperfeição humana será repassada para eles da mesma forma, assim esbraveja vigorosa a genética. Quiçá o mundo será melhor. Sim, ele será. Ele será? O homem não é perfeito, mas não é o que diz a mídia. Todos nela são perfeitos, exceto aqueles que realmente necessitam da imperfeição. E você busca todo dia ser igual a todos. Não adianta, meus caros, vocês serão sugados pela mídia, pelos comentários; darão importância ao que os outros falarão e vocês também falarão. Falaremos todos, escutaremos tudo, criaremos inúmeras caraminholas na cabeça, despejaremos no primeiro que não formos com a energia toda a nossa repulsa e procuraremos descobrir qualquer mísero defeito para difamarmos a sua vivência.

E diante disso, pretendemos viver felizes por todo o sempre, até que a morte nos separe da pessoa com quem escolhemos casar. Nos primeiros anos olharemos encantados para este ser humano que acharemos incrível a facilidade com que ela nos faz ver o mundo mais lindo. É. O amor é cego. Talvez o amor seja puro e nós sejamos cegos. Tempos depois nosso par terá defeitos um pouco desagradáveis. Anos mais tarde esses defeitos serão o nosso maior tormento e, após algumas tentativas de separação terminaremos juntos, velhos enrugados, frágeis esqueletos esfarelados pela osteoporose, sustentados por bengalas, paredes e corrimãos. E nada melhor para nós, do que sentarmos diante da calma de nossa vida senil, tomarmos um chá, ouvirmos Satie e vislumbrarmos pela janela, que traz o ar fresco de uma tarde, o mundo em que pretendíamos viver. Um mundo vasto e limpo.

Vivi