quinta-feira, maio 25, 2006

Quarto 251

Subitamente, deu-lhe a vontade e o ímpeto de adentrar por aquele lugar, pegar o elevador apressado, sem se identificar – de certo, não seria necessário identificar-se para ela – sair sufocado das quatro paredes daquele cubículo, cair no corredor e correr, parando frente a frente da porta do quarto 251, sem precisar, também, bater e ser reconhecido pela voz. Rodaria o trinco, assim o fez, pôs-se dentro do recinto e respirou profundo, era o cheiro dela, suas roupas estendidas em partes diversas do âmbito: ali estava quem queria ser encontrada.
— Porque demoraste tanto, meu amor? Estive aqui, o tempo inteiro, a tua espera.
Sem mais palavras, fundiram-se os corpos, bocas, pernas, seios, sexos, roupas a parte, mãos, sussurros, gemidos, ventres, braços, beijos, dentes, carne e no gozo extremo dos dois, estamparam as buzinas dos carros atrás dele: carro, gente, asfalto, cidade, vida diferente do que pensara. Esta era a vida real. Acordara do sonho no qual residira por uns quinze minutos parado diante o hotel, que continuava com as portas abertas e deixava transpassar por todo prédio o cheiro da pele dela.

Vivi

segunda-feira, maio 22, 2006

Deixe-a

Deixe-a falar mais uns segundos
Até que se cale suas palavras vãs.
Deixe-a desnudar-se em véus e vãos.
Deixe-a encabular-se pelo silêncio que já
a corrói.
Deixe-a submersa no branco dos pensamentos.
Deixe-a submeter-se no que ela pensa existir.
Deixe-a, simplesmente.
Deixe-a.
Assim como as folhas se renovam.
Assim como a espuma do mar é tragada pela areia.
Deixe-a não mais existir no seu cotidiano lasso.
Deixe-a.
Deixe-a tão sozinha quanto as quatro paredes brancas.
Não a deixe tão somente assim.
Não!

Vivi

sexta-feira, maio 19, 2006

Na estrada de Siqueira

Lá vem Marta
Olhos caídos, face enrugada.
Lá vai João
Pernas bambas, gestos frouxos,
Enquanto Antônio convalesce de paixão.
Alberto pensa.
Maria sonha.
Ana vive.
Vinícius beija
A boca do gargalo da cerveja sobre a mesa.
Beatriz almeja a velocidade do tempo.
Camélia pede pra este não passar.
Serafim olha o teto.
Lúcia se debruça na janela.
Socorro chora ao rever o retrato.
Berta rebola ao som do compasso frenético.
Amélia deixou os pratos na pia e agora mora no bar.
Joaquim chora pela mulher que caiu na orgia.
E tudo segue seu rumo.
A cidade de Siqueira, hoje, vive.

Vivi

Maria

“... Anda, Maria
Pois eu só teria
A minha agonia
Pra te oferecer.”
(Tom Jobim e Chico Buarque)


Ela olhou de lado para as pedras que afundavam no rio de águas claras e frescas, escutou ao longe um som do sabiá e lembrou-se que deixaria a água levar, não sua saudade daquele canto, mas toda a alegria que depositara desde criança. Ainda menina separou-se dos pais e foi morar com a avó em um sítio na encosta de um morrinho, com uma mata ao fundo.
Corria em disparada para a mata quando a avó procurava-a para fazer trabalhos domésticos ou para lhe bater por alguma proeza, ou quando estava triste e queria chorar sozinha em um canto. E ao ouvir o canto do sabiá, Maria olhava para as árvores à procura do pássaro e sorria: ali a tristeza se dissipara como uma flecha reparte o vento em duas partes, na pressa em que segue para seu destino. Em sua face jazia a estrada bilateral, onde carregava as agruras e as risadas de seu destino e nos seus olhos morava a infelicidade de pouco ter conhecido sua mãe. Tão pouco esteve presente em sua vida e, às vezes, questionava a Deus se sua mãe, lá em cima no céu, lembrava-se da filha aqui embaixo. A resposta não vinha, aliás, nunca veio, então deixou de perguntar. Do pai nada sabia. Lembrava-se de botas sujas de graxa, e uma voz bastante grave, que lhe dizia para não chegar perto do cachorro.
A única referência masculina, que teve a vida inteira, foi a pintura de Jesus Cristo no pequeno oratório da avó. Maria lembrava-se das inúmeras vezes que rezara aos pés daquela pintura, diante de toda mudez e plenitude divina daquele retrato, a quem ela chamava de “meu pai” e a avó a corrigia, dizendo que era “seu irmão”, porque o Pai era Deus, contudo a menina não se interessava pelo grau de parentesco entre a imagem daquele homem sereno e ela. Só desejava a proteção e o carinho daquelas mãos feridas e serenas.
Ao completar dezesseis anos, a avó tomada por uma constipação não levantou do leito por um mês e depois de algumas semanas abriu a boca para dizer à neta que fosse colher as rosas do jardim, colocasse no oratório e depois viesse ter com ela, mas na volta Maria não a encontrou mais. A alma se fora, restando, apenas, a matéria. A penumbra envolveu-lhe por dias. Com os braços finos sepultara a avó no quintal e sobreveio à sua mente, o fato de que poderia correr mundo, pois só estava e só morreria; nunca lhe passando pela cabeça estar no fundo daquela terra.
Lançou-se às correntezas da vida, despediu-se das águas e dos sabiás, recordou-se das lembranças que lhe feriam, das respostas nunca obtidas e do retrato do pai imaginário. A estrada estava fresca naquela tarde de ventos frios e pelo bosque da mata, Maria entrou mundo afora. Ninguém a viu passar, ninguém soube onde parou, ninguém sabe se um dia, Maria, amou.

Vivi

quarta-feira, maio 17, 2006

O macho

E como se não fosse capaz de dizer uma só palavra, saiu do bar, completamente, mudo. Percorreu ruas alagadas, com postes mal acesos. Uma claridade amarela, que não da lua, enchia as poças de água de vida, cambaleando e meio torto, desceu a Ladeira do Moreno, as meretrizes com as coxas a mostra dos vestidos de lasco, exibiam-se cansativas, enquanto os bêbados restantes debulhavam-se nas quinas das calçadas. Bares ainda abertos continham as brigas e garrafas quebradas, um samba não lasso e a cachaça ainda descia-lhe macia na garganta rouca. Mais um cigarro, um chapéu preto, um paletó desmanchado de suor, cheiro de álcool, perfume de uma mulher qualquer, batom de um vermelho denso no lenço, ainda seguiria para casa, atravessando grande parte do bairro, para poder descansar na cama de lençóis brancos que Deusa lavara na manhã passada. Em seu travesseiro murcho, colocaria a cabeça e nem lembraria o que tanto fizera na noite passada, nem do que cantara, de nada. Atravessou toda a ponte, e saiu confundindo as mazelas da vida, com a realidade que perambulava ali em sua frente, até que deparou com um casal que sem pudor algum, escorregava as mãos nos corpos, beijavam-se com um ardor ferrenho e supunham estar em um quarto, pois mais adiante, foi-se uma mão para dentro da saia e outra para dentro da calça. E parando um instante para admirar a cena, como se fosse trazer-lhe algum tipo de paz, reconheceu nas mechas de cabelo feminino, a cor castanha dos de Deusa, também deu com as coxas e o colo da esposa, com o mexe remexe dos lábios dela, os braços, os seios, o pescoço, o ventre, o vestido de Deusa, enfim, era sua deusa. Respirou fundo, sentiu um aperto no peito, cerrou os pulsos, largou o jeito bêbado, pois o álcool já sumira dos nervos, fazendo-lhe ferver o resto do sangue, caminhou a passos firmes e certos de acabar com aquele despautério. Como ela podia fazer aquilo com ele? Como deixara as crianças para chafurdar com aquele homem desconhecido? Como podia deixar de esperá-lo para tirar os sapatos quando ele chegasse em casa cansado da boemia? Agora os lençóis estavam sujos. Ao passo que chegava mais perto ouvia a respiração ofegante dela, os gemidos, os murmúrios, a voz dele nos ouvidos dela e sentia um ódio que não sabia que existia dentro de seu âmago. Ao ouvirem os passos apressados em direção a eles, o casal virou e os olhos dele se encheram de lágrimas, tudo passou em sua frente por um milésimo de segundos. Sentou-se no chão e chorou estranhamente e depois de tanto sofrimento, que seu corpo não entendia, mas sua mente compreendia de modo perfeito, ergueu-se e continuou a cambalear pelas ruas e becos. Chegou em casa e lá estava sua mulher, dormindo um sono sem máculas e ouvindo o rumor dele na cama, abriu os olhos morosos, fez um gesto como quem ia retirar-lhe os sapatos sujos e as meias remendadas, mas ele interveio: - Deixa, mulher! Não compreendendo nada, ela ficou sentada um tempo olhando para ele fazer o que, todas as noites, ela fazia como que uma obrigação. Estupefata deitou-se e virou para o lado, enquanto ele desfazia os nós do sapato e deitando, sentiu o perfume do sabão, com o qual, Deusa lavara os lençóis.

Vivi

quarta-feira, maio 10, 2006

Os tristes dias de Divina

Depois de tantos anos sentiu vontade de se ver no espelho. Sua face não se reconhecia mais. Observava as rugas nos olhos cansados de viver, a boca esquecida pelo tempo. Não lembrava mais o som de sua voz. Divina relembrava a última vez que leu Cem Anos de Solidão e se sentia como Úrsula, velha. Não sabia para quem vivia e ninguém mais notava sua presença. Os netos brincavam com seu corpo enfermo sob a cama. Os filhos pediam, para que aquele sofrimento acabasse, que Deus de uma vez por toda a levasse para junto dele. "Lá ela será feliz", repetiam. Já não sentia mais vontade de viver, afinal era um fardo. "Quem cuidará dela?", "Estou sem tempo!" Seus próprios filhos reclamavam em alto e bom som, talvez com intuito de magoá-la e assim adiantar sua morte. Morte, essa sim, era a mais ingrata das filhas sempre demorando a chegar. Ninguém de sua família jamais soube como tinha sido sua vida ou seu casamento. Era uma verdadeira estranha para os filhos. Uma mãe ausente em presença era muito reservada, muito tímida e calada. Sempre assistiu aos filhos com amor, mas nunca conseguiu expressar em palavras o que sentia. Nunca ousou contar nenhum fato de sua vida. Era um verdadeiro livro fechado.Quando começou a perder a lucidez, resolveram contratar Minervina para cuidar da velha gagá. Em seus devaneios alguns segredos foram revelados, mas como a pobre criada iria desvendá-los? Mal sabia o nome daquela velha e para quem iria falar o que ouvia? Ninguém se importava mesmo. Esses foram os últimos pensamentos e a última imagem vista por ela: seu próprio rosto refletido. Por algum minuto até esqueceu que era uma velha inútil e voltou ao tempo, onde não existiam rugas, nem cicatrizes ou marcas do tempo. Desvendou o grande ciclo da vida: nasceu, cresceu, reproduziu e estava prestes a descobrir a morte. Finalmente, a ingrata chegara.

terça-feira, maio 09, 2006

A senhora

Dona Isolda. Chamava-se assim. Uma mulher idosa, de corpo gordinho, faces roliças e rosadas, cabelos curtos e pintados de cor amêndoa, pele lisa para seus oitenta e cinco anos e o hábito de tricotar no terraço, enquanto seu gato, de nome Pires, dormia na cadeira de almofadas de flores estranhamente vermelhas.
Morava só e tão só acomodou-se aos hábitos peculiares de regar suas plantas pela manhã, sentar-se na mesa pequena da cozinha, fazer seu leite, alimentar Pires e limpar a casa, que nunca estava desarrumada. Tudo em seus lugares. Mas, se ao menos os netos viessem no final de semana... Pensava ela carcomida pela languidez das manhãs de maio. Batia o tempo, corriam as horas e nada da noite chegar, assim como os filhos que não a visitavam há meses, na verdade, há anos. Contudo, é desta forma que a vida prossegue: cada qual em seu lugar, cada filho na família de outros parentes da esposa ou esposo e seus netos deveriam crescer sem saber chamá-la de vovó.
Dona Isolda parou no tempo. Estagnada pelas mesmas manias, pensava agora o que faria com Pires, caso ela viesse a falecer da noite para o dia. Quem cuidaria do seu estimado amigo? Do mesmo modo como a resposta não vinha, a pobre senhora tricotava longas toalhas para as mesas, casacos para bebês, sapatinhos de criança, tecia enxovais completos de casal, pintava, nestes, margaridas, hortênsias, papoulas, rosas, girassóis e infinitas alfazemas.
Quando a tarde adormecia cansada, a senhora de olhos tristes e verdes, se levantava da cadeira, acendia algumas luzes da casa e em meio ao fogão e cozinha, refazia a rotina da manhã: comida de Pires e jantar, onde a colher de prata com a seguinte dedicatória: Para minha Isolda, presente do primeiro ano de casada, fazia rodopiar o leite quente na xícara de porcelana. Ia para o leito pontualmente às sete e meia da noite, apagava todas as luzes, trancava as portas, chamava o gato que ronronava ao deitar no cestinho, ao lado da cama, encostava a cabeça no travesseiro e chamando Pires, percebia que ele a atendia com um miado fino.
— Amanhã, Pires, eles vêm aqui. Amanhã eu conheço meus netos.
O bichano não miava mais, talvez, na certeza de que ela nunca conheceria os netos, quiçá na certeza de nunca ver sua dona renovar o sorriso e a esperança, e Dona Isolda, na plena escuridão do seu quarto, enrolada em dois lençóis macios e brancos, pois o frio dos que padecem da velhice já chegara, tentando enxergar o teto e o lustre, meio ao breu, ainda resguardava a esperança de um dia ser uma vovó conhecida.
Naquela noite, Pires ficara órfão. As peças dos enxovais mofaram, os sapatinhos de bebê, mantinhas, ficaram amareladas, as flores murcharam e perderam as pétalas uma a uma, o tecido alimentou as traças, as mesas criaram poeira branca, o piso foi engolido por heras e tudo o que era de Dona Isolda o tempo levou, sem lhe restar ao menos o chamado carinhoso de vovó.

Vivi

O nascer da lua

Estou em frente ao mar, daqui dá para sentir a maresia e a brisa que vem de lá. A brisa seria só um termo poético, porque o que sinto de verdade é um forte vento que embaraça meus cabelos. Saindo um pouco do mar, procuro olhar para areia e para as pessoas que estão ao meu lado. Olhando um pouco a direita, vejo doze homens jogando futebol: seis deles estão com camisa e os outros seis estão sem. Parei para observar bem o jogo, não gosto de futebol, mas já que estou aqui, vou olhar. O time dos descamisados ganha por dois a um, se ao menos eu entendesse do jogo, poderia complementar que eles mereceram ganhar, mas não entendo. Começo a achar que estou aqui há um tempo! Ainda estou na praia, voltei a olhar o mar, de quando em quando olho pra atrás e vejo que por ali o sol se põe. É um show de cores! Vejo o céu escuro e um degradê verde-claro. Estou olhando o mar - mais uma vez - dessa vez fico filosofando sobre a vastidão dele. Ainda consigo ver alguns barquinhos, esses de pequenos de pesca.

Assim que eu cheguei a praia o mar estava lindo, aparentava estar limpo e com uma cor que me convidava a entrar. Resisti, pensei bem e vi que estava de calça jeans, daria um trabalho para secar e ficaria cheia de areia. Seria melhor não. Agora chegou a hora de analisar os coqueiros da praia, alguns são mais altos que outros, têm até os que sofrem mais com vento e ficam tortos, os que têm frutas e os que são tristes.

Começa o mais novo espetáculo da natureza, vem surgindo do mar uma enorme bola dourada, mas ela não tem pressa, vem aos poucos. Nessa hora a praia parou. Os que caminhavam, os que corriam, os que brincavam, os que liam, os que escreviam, todos pararam para ver o emergir da lua. Algumas nuvens invejosas tentam esconder a linda imagem, mas ela está lá segura de sua beleza e vai subindo charmosa como só ela. Ela saiu do mar e está redonda, amarelada e inteira no céu. Que imagem! A cada segundo a lua vai se distanciando do sol e vai clareando, vai perdendo o seu amarelado e vai ganhando um prateado. A sua luz começa a intensificar e iluminar não só o mar, mas também ilumina as pessoas que estão ali. Estamos todos mudas, surdos e totalmente hipnotizados contemplando a magnificência da lua.

Agora são dezoito horas da tarde, ou da noite, como cada um quiser. A lua está em sua forma absoluta, prateada e esplendorosa. Ela está cheia, redonda e iluminando tudo que tem perto dela. Tendo visto esse fabuloso espetáculo, vou embora com essa imagem pintada em meus pensamentos e sabendo que a partir desse instante: Eu vejo um mundo mais feliz!


segunda-feira, maio 08, 2006

Quem somos?

Esse blog pertece a duas pessoas: Cê e Vivi, duas estudantes de comunicação-social e inspirantes a videasta.
Esse será o espaço que vamos usar para dividir nossas idéias, nosso desvaneios e dividir um pouco de nossas vidas com vocês.

Até mais.

Cê.