terça-feira, maio 09, 2006

A senhora

Dona Isolda. Chamava-se assim. Uma mulher idosa, de corpo gordinho, faces roliças e rosadas, cabelos curtos e pintados de cor amêndoa, pele lisa para seus oitenta e cinco anos e o hábito de tricotar no terraço, enquanto seu gato, de nome Pires, dormia na cadeira de almofadas de flores estranhamente vermelhas.
Morava só e tão só acomodou-se aos hábitos peculiares de regar suas plantas pela manhã, sentar-se na mesa pequena da cozinha, fazer seu leite, alimentar Pires e limpar a casa, que nunca estava desarrumada. Tudo em seus lugares. Mas, se ao menos os netos viessem no final de semana... Pensava ela carcomida pela languidez das manhãs de maio. Batia o tempo, corriam as horas e nada da noite chegar, assim como os filhos que não a visitavam há meses, na verdade, há anos. Contudo, é desta forma que a vida prossegue: cada qual em seu lugar, cada filho na família de outros parentes da esposa ou esposo e seus netos deveriam crescer sem saber chamá-la de vovó.
Dona Isolda parou no tempo. Estagnada pelas mesmas manias, pensava agora o que faria com Pires, caso ela viesse a falecer da noite para o dia. Quem cuidaria do seu estimado amigo? Do mesmo modo como a resposta não vinha, a pobre senhora tricotava longas toalhas para as mesas, casacos para bebês, sapatinhos de criança, tecia enxovais completos de casal, pintava, nestes, margaridas, hortênsias, papoulas, rosas, girassóis e infinitas alfazemas.
Quando a tarde adormecia cansada, a senhora de olhos tristes e verdes, se levantava da cadeira, acendia algumas luzes da casa e em meio ao fogão e cozinha, refazia a rotina da manhã: comida de Pires e jantar, onde a colher de prata com a seguinte dedicatória: Para minha Isolda, presente do primeiro ano de casada, fazia rodopiar o leite quente na xícara de porcelana. Ia para o leito pontualmente às sete e meia da noite, apagava todas as luzes, trancava as portas, chamava o gato que ronronava ao deitar no cestinho, ao lado da cama, encostava a cabeça no travesseiro e chamando Pires, percebia que ele a atendia com um miado fino.
— Amanhã, Pires, eles vêm aqui. Amanhã eu conheço meus netos.
O bichano não miava mais, talvez, na certeza de que ela nunca conheceria os netos, quiçá na certeza de nunca ver sua dona renovar o sorriso e a esperança, e Dona Isolda, na plena escuridão do seu quarto, enrolada em dois lençóis macios e brancos, pois o frio dos que padecem da velhice já chegara, tentando enxergar o teto e o lustre, meio ao breu, ainda resguardava a esperança de um dia ser uma vovó conhecida.
Naquela noite, Pires ficara órfão. As peças dos enxovais mofaram, os sapatinhos de bebê, mantinhas, ficaram amareladas, as flores murcharam e perderam as pétalas uma a uma, o tecido alimentou as traças, as mesas criaram poeira branca, o piso foi engolido por heras e tudo o que era de Dona Isolda o tempo levou, sem lhe restar ao menos o chamado carinhoso de vovó.

Vivi

3 comentários:

O fantásico mundo de Vivi e Cê disse...

Dona Isolda seria uma ótima compania para Divinha, aquela que também foi esquecida pela família.Deus me livre envelhecer assim.

beijos.

O fantásico mundo de Vivi e Cê disse...

Ops, não é Divinha, é Divina!

:*

O fantásico mundo de Vivi e Cê disse...

Divina e ela combinam demais, agora foi que me lembrei... Vou colocar Dona Divina aqui.

Beijosssss