Um homem, sem nome, porque ele não precisa ter nome para ser um homem. Então, um homem sem nome acorda em algum dia do ano, em certo mês, em um dado dia da semana, que possivelmente é qualquer dia e que possui qualquer manhã dessas sem nada de especial, em um solavanco e tropeçando nos lençóis cai com a face no chão, quebrando os dois dentes da frente e mais um da arcada de baixo, o que lhe traz a grave conseqüência de não poder sorrir o restante do dia, até poder marcar a hora no dentista e conseguir consertar os dentes.
Não bastando isso, abre a torneira e não sai uma só gota de água. Pensa que pagou a conta de água. Sim! É fato, ele pagou a conta de água, mas simplesmente está faltando água. Logo, como faz? As garrafas da geladeira estão secas: grave ocorrido pela ressaca do dia anterior, já que na despedida de solteiro do último amigo solteiro, ele esvaziou duas grades de cerveja. Sozinho? Sim, sozinho! E você, leitor, deve se perguntar por que acontecem essas coisas na vida de alguém. Ora, caro leitor, porque ocorrem. São fatos que podemos esperar por várias vezes, em diversos dias do ano, e o pior de tudo. Poderia ser com você.
Voltando ao homem sem nome, ele veste a roupa, mas esquece de fechar o zíper da calça. No escuro, pois também faltava luz, já que na noite anterior o transformador da sua rua, com o temporal, explodiu, ele consegue a proeza de calçar um sapato marrom e outro preto. Sim, as meias também estavam trocadas. Vocês sabem, homem solteiro é de uma organização incrível. Então, como o homem sem nome não toma café, não pode escovar os dentes e o seu despertador avisa do atraso para o trabalho, ele corre desesperado pelas escadas, entra no carro, mas o carro não pega. Decide ir de ônibus. No ônibus uma moça linda e perfeita para com o bumbum em frente ao seu zíper aberto e o que acontece a seguir? Não, leitor, não vai acontecer o que você quer, mas sim o que é normal. O homem é posto para fora do veículo a bofetadas, bolsas voam em seu rosto e o adjetivo “tarado” é pouco para o que se ouviu no transporte. Dolorido, desdentado, com fome, com um bafo horrível e de sapatos e meias trocados, o homem segue a pé para o trabalho, agora de zíper fechado.
Mas, rapidamente, um carro atira-lhe toda a água que necessitava para banho, escovar os dentes e sede. Só que a água era lama. Que horror, leitor! Eu não sou cruel, contudo a vida sim. Ele não pode voltar para casa, pois está atrasado, o jeito é encarar o trabalho fedendo mesmo. E nosso bravo homem sem nome e azarado segue em frente. No escritório, seu chefe passa o dia soltando piadas, o dentista não atende, mas a namorada o liga, dizendo que o romance de quatro anos, cinco dias, nove horas e doze segundos acabara. O motivo? “Sabe o Carlão? Aquele seu amigo do escritório?” E ela desliga sem mais satisfações. O que o nosso homem sem nome fará? Claro, ele anda com passos firmes, punho cerrado e golpeia o rosto viril e ameaçador do Carlão, que cai da cadeira, com o nariz quebrado e o sangue jorrando como uma fonte. Sim, nosso homem sem nome é despedido por justa causa, porque ninguém mesmo dava importância para alguém sujo de lama, que não tem identidade, desdentado, faminto, tarado, de sapatos trocados, sem namorada, solteiro, e ainda por cima, azarado.
Então, nosso homem sem nome sai pelas ruas da grande cidade, para numa praça, acende um cigarro, porque não lhe interessa mais comer, e descobre que o dia está insuportavelmente quente, porém os pombos precisam defecar. Sim, eles precisam, assim como todo ser vivo. E eis que a sujeira dele vai parar onde? Sim, na cabeça do homem sem nome, que em meio a uma ira colossal põe-se a quebrar bancos, bater nas pessoas que passam, espanca um guarda, quebrar bancas de ambulantes e a gritar que o mundo é podre e injusto. Quando ele serena, subitamente lhe incorre uma gargalhada, que estremece toda a praça e um garotinho que a tudo vê berra “Nossa, ele é banguela” em meio à multidão assustada.
A risada começa tímida, depois cresce e vira um turbilhão de gargalhadas estrondosas, em coro ritmado e dissonante. Pobre do homem sem nome! Em dez minutos chega a ambulância do hospício e ele é levado e trancafiado em um quarto úmido e lúgubre, onde ninguém nunca mais soube dele.
Vivi
quinta-feira, novembro 23, 2006
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