quarta-feira, outubro 24, 2007

Janelas


Vês essas janelas?
Olha onde elas darão.
Universos gigantescos se abrem para todos.
Cada qual no seu mundo observando os ângulos diversos.
Vês essas janelas? Cada qual te revelará um lado diferente.
Veja através dessas janelas.
Dentro de cada recinto delas
Haverá uma porta a ranger,
Uma criança a chorar,
Um homem a bater,
Uma mulher a gritar,
Um relógio a parar.



Vivi

quinta-feira, outubro 18, 2007

O paradoxo da vida em comunidade


Pretendemos conviver em um mundo vasto e limpo. Necessitamos de amor, carinho, afeto, ternura, compaixão, piedade, solidariedade e insistentemente amor. A princípio tudo parece fácil: não procuramos nossa comida, o ar que respiramos não é recolhido pelas nossas narinas, o sangue que corre em nossas veias é de outra pessoa, a temperatura é sempre confortável aos nossos frágeis ossos e pele em formação, nossos olhos permanecem fechados e podemos continuar nesse mundo fantástico por toda a vida, mas em nove meses tudo será diferente.

O ar, que antes não era nosso, viola nossos pulmões e em um arroubo de brutalidade descomunal desce em nosso aparelho respiratório e damos o primeiro brado retumbante. O grito explode imenso e essa dor primordial nos acompanhará por toda a vida. Eis a vida, meus caros! Ei-la tripudiando de nossos corações, que dizemos ser fiéis, sinceros, castos, fraternais, amorosos, mas que de nada adiantará se o coração não é aquele dos desenhos: simetricamente perfeito com a cor vermelha. Esse músculo que pulsa carregará durante sua vida inteira mais ódio e raiva do que você mesmo cogitará. E não adianta dizer que não guarda rancor: na primeira oportunidade que tiver você, certamente, se vingará daquele que lhe apedrejou. Mesmo que a pedra seja um pedregulho encontrado no sapato, em seu pior dia sádico.

E diante disso, pretendemos viver felizes por todo o sempre, até que a morte nos separe daquela dor do primeiro átomo de oxigênio que nos estuprou os pulmões. E desejamos casar e ter filhos, para repassar para eles tudo o que não fomos, ou não somos: pessoas que tiveram ou têm frustrações, por tantas vezes infelizes, odiadas, amadas e queridas; e talvez nossos filhos não incorram no nosso mesmo erro. Já diz a propaganda: “Faça a sua parte”. Nossos filhos convivem no mesmo ambiente que o nosso. A imperfeição humana será repassada para eles da mesma forma, assim esbraveja vigorosa a genética. Quiçá o mundo será melhor. Sim, ele será. Ele será? O homem não é perfeito, mas não é o que diz a mídia. Todos nela são perfeitos, exceto aqueles que realmente necessitam da imperfeição. E você busca todo dia ser igual a todos. Não adianta, meus caros, vocês serão sugados pela mídia, pelos comentários; darão importância ao que os outros falarão e vocês também falarão. Falaremos todos, escutaremos tudo, criaremos inúmeras caraminholas na cabeça, despejaremos no primeiro que não formos com a energia toda a nossa repulsa e procuraremos descobrir qualquer mísero defeito para difamarmos a sua vivência.

E diante disso, pretendemos viver felizes por todo o sempre, até que a morte nos separe da pessoa com quem escolhemos casar. Nos primeiros anos olharemos encantados para este ser humano que acharemos incrível a facilidade com que ela nos faz ver o mundo mais lindo. É. O amor é cego. Talvez o amor seja puro e nós sejamos cegos. Tempos depois nosso par terá defeitos um pouco desagradáveis. Anos mais tarde esses defeitos serão o nosso maior tormento e, após algumas tentativas de separação terminaremos juntos, velhos enrugados, frágeis esqueletos esfarelados pela osteoporose, sustentados por bengalas, paredes e corrimãos. E nada melhor para nós, do que sentarmos diante da calma de nossa vida senil, tomarmos um chá, ouvirmos Satie e vislumbrarmos pela janela, que traz o ar fresco de uma tarde, o mundo em que pretendíamos viver. Um mundo vasto e limpo.

Vivi