
Pretendemos conviver em um mundo vasto e limpo. Necessitamos de amor, carinho, afeto, ternura, compaixão, piedade, solidariedade e insistentemente amor. A princípio tudo parece fácil: não procuramos nossa comida, o ar que respiramos não é recolhido pelas nossas narinas, o sangue que corre em nossas veias é de outra pessoa, a temperatura é sempre confortável aos nossos frágeis ossos e pele em formação, nossos olhos permanecem fechados e podemos continuar nesse mundo fantástico por toda a vida, mas em nove meses tudo será diferente.
O ar, que antes não era nosso, viola nossos pulmões e em um arroubo de brutalidade descomunal desce em nosso aparelho respiratório e damos o primeiro brado retumbante. O grito explode imenso e essa dor primordial nos acompanhará por toda a vida. Eis a vida, meus caros! Ei-la tripudiando de nossos corações, que dizemos ser fiéis, sinceros, castos, fraternais, amorosos, mas que de nada adiantará se o coração não é aquele dos desenhos: simetricamente perfeito com a cor vermelha. Esse músculo que pulsa carregará durante sua vida inteira mais ódio e raiva do que você mesmo cogitará. E não adianta dizer que não guarda rancor: na primeira oportunidade que tiver você, certamente, se vingará daquele que lhe apedrejou. Mesmo que a pedra seja um pedregulho encontrado no sapato, em seu pior dia sádico.
E diante disso, pretendemos viver felizes por todo o sempre, até que a morte nos separe daquela dor do primeiro átomo de oxigênio que nos estuprou os pulmões. E desejamos casar e ter filhos, para repassar para eles tudo o que não fomos, ou não somos: pessoas que tiveram ou têm frustrações, por tantas vezes infelizes, odiadas, amadas e queridas; e talvez nossos filhos não incorram no nosso mesmo erro. Já diz a propaganda: “Faça a sua parte”. Nossos filhos convivem no mesmo ambiente que o nosso. A imperfeição humana será repassada para eles da mesma forma, assim esbraveja vigorosa a genética. Quiçá o mundo será melhor. Sim, ele será. Ele será? O homem não é perfeito, mas não é o que diz a mídia. Todos nela são perfeitos, exceto aqueles que realmente necessitam da imperfeição. E você busca todo dia ser igual a todos. Não adianta, meus caros, vocês serão sugados pela mídia, pelos comentários; darão importância ao que os outros falarão e vocês também falarão. Falaremos todos, escutaremos tudo, criaremos inúmeras caraminholas na cabeça, despejaremos no primeiro que não formos com a energia toda a nossa repulsa e procuraremos descobrir qualquer mísero defeito para difamarmos a sua vivência.
E diante disso, pretendemos viver felizes por todo o sempre, até que a morte nos separe da pessoa com quem escolhemos casar. Nos primeiros anos olharemos encantados para este ser humano que acharemos incrível a facilidade com que ela nos faz ver o mundo mais lindo. É. O amor é cego. Talvez o amor seja puro e nós sejamos cegos. Tempos depois nosso par terá defeitos um pouco desagradáveis. Anos mais tarde esses defeitos serão o nosso maior tormento e, após algumas tentativas de separação terminaremos juntos, velhos enrugados, frágeis esqueletos esfarelados pela osteoporose, sustentados por bengalas, paredes e corrimãos. E nada melhor para nós, do que sentarmos diante da calma de nossa vida senil, tomarmos um chá, ouvirmos Satie e vislumbrarmos pela janela, que traz o ar fresco de uma tarde, o mundo em que pretendíamos viver. Um mundo vasto e limpo.
Vivi