
Apressado saiu da casa, pés alvoroçados, escarrado nos olhos um desespero do novo dia que começava. Dia só. Mais só que nunca. A cidade turbulenta corria contra uma monotonia que queria se impostar e as pessoas sonolentas deixavam-no ainda mais infeliz, naquela manhã enfastiosa.
Lembrava de Carolina. Lembrança distante, que nunca mais poderia se apossar. João chega ao trabalho, olhos vermelhos, depressiva tonalidade de uma feição pálida, que transborda de seu âmago e deposita no encosto de seus ombros o peso do "nunca mais". Impossível não se lembrar dos olhos serenos de Carolina ao dormir, a boca hermeticamente fechada e que nunca se abria durante o sono denso e mágico, soltando a respiração leve pelo nariz perfeito. O que sonharia? O sorriso largo e que lhe transportava ao universo mais puro e pagão, ao contraditório que lhe batia no peito, dizendo ser amor.
Carolina... Carolina... Chamava-a por pensamentos freqüentes, mas não seriam mais atendidos. Ela fechara-lhe a porta e o sereno e a noite fria lhe habitavam o ínterim daqueles tristes dias vazios e incompletos.
Passa-se o dia. João lembra dos olhos de Carolina. Nada mais lindo no mundo poderia existir. Olhos que mais pareciam o mar de alegria emergindo uma esperança de que a vida, dali por diante podria valer a pena. Dali para frente os dias não valeriam mais a pena.
E joão voltou para casa. Quão miúdo, quanto saíra de manhã cedo, tão insuportavelmente tristonho e depressivo, quanto amanhecera. Só lhe restava um copo de veneno amargo e a imagem turva em um espelho obscuro. As vezes, o que lhe impedia era a curiosidade do que viria no amanhã. Sem saber o que fazer, João espera a batida, a última batida do relógio, para ainda, se decidir entre o copo e a curiosidade.
Mas ele, João, ainda não sabe.
Ainda...
Vivi

