quinta-feira, julho 19, 2007

O mundo de Juliana

“Acreditamos todos que é impensável que o amor de nossa vida possa ser uma coisa leve, uma coisa imponderável; achamos que é nosso amor que deve ser, que sem ele nossa vida não seria nossa vida”

(Milan Kundera)

Juliana acreditava que em contos de fadas, acreditava que um dia seu príncipe chegaria e iria salvá-la da enorme torre que havia criado em sua vida. Imaginava que um dia seu salvador chegaria num cavalo branco, enorme e lindo. Seria alto, forte, com os cabelos castanhos médio, seus os olhos seriam expressivos e sinceros, a cor não importava, mas imaginava como seria bom se ele tivesse olhos verdes.

Quando criou a imagem de seu homem perfeito, Juliana ainda era muito nova, era uma criança e nada sabia da vida. Conforme foi crescendo sua impaciência foi aumentando. Ela queria muito conhecer logo esse tal príncipe, e se perguntava por que ele não aparecia logo, e sofria por isso, sofria muito. Era um sentimento muito pesado para alguém tão jovem.

Nossa heroína tinha lindos e longos cabelos negros, era escorrido e nas pontas davam voltas fazendo suaves cachos. Ela tinha um rosto angelical, todos os seus traços de seu rosto foram milimetricamente desenhado.

Era cobiçada por todos os homens de sua cidade, até mesmo dos mais importantes partidos. Sua mãe insistia para que ela aceitasse algum daqueles pomposos senhores, mas não, Juliana continuava a esperar seu salvador.

Ela sentia uma enorme tristeza porque depositava toda sua felicidade naquele homem que era bem possível que nunca aparecesse. A pobrezinha vivia numa fantasia. Ela não conseguia sair daquela realidade que havia criado para ela, não importava o que as pessoas lhe falavam, ela não dava ouvidos a ninguém. E continuava esperando.

O tempo passa e é cruel com todos. Nós nascemos com uma certeza, que sofreremos com a morte. Juliana estava tão envolta pelo seu mundo de conto de fadas e príncipes encantados, que seu sofrimento já era maior que a esperança do amor. Ela amou sem nunca ter sido amada. Viveu sem ter experimentado as dificuldades da vida, sem saber o que é superar uma dor, uma decepção.

Uma vida desperdiçada foi assim que Juliana pensou antes de sua morte. Tanta expectativa posta em cima de uma única pessoa, um alguém que nunca existiu na realidade. Ficava imaginando quantas pessoas poderia ter amado, quantas vezes poderia ser enganada com a ilusão do “grande amor” de nossas vidas, quantas paixões poderia ter tido, o quanto poderia ter se divertido, quantos amigos poderia ter feito. Muito poderia ter sido feito, mas não o fez acreditando numa ilusão.

Juliana tinha consciência que a felicidade só poderia ser proporcionada por ela mesma, e jamais deveria ter depositado sua felicidade num sonho. “Minha felicidade sou eu quem faço” disse tardiamente.


sexta-feira, julho 13, 2007

O espelho da floresta

E nesse dia...
E nesses todos os dias...
E todos os dias com que olhos tomas o mundo?
Não, meu querido, não baixes os olhos hoje.
Deixa que eu te mostre o que está aqui fora.
Deixa que a cidade te envolva com as luzes amarelas.
E ele me respondeu com um sorriso tão meigo:
- Mas, eu não quero saber disso não.
Então, deixa que eu te mostre a floresta.
Ávida tomei-o pela mão e começamos a subir,
Entre gargalhadas e devaneios,
Entre cervejas e cigarros,
Entre cachimbos e loucuras,
Entre carinhos e amizades.
Fomos sublimando as desgraças e misérias das guerras interiores,
Chegando ao topo da cadeia das palavras,
Fui mostrando que no seu âmago ele era perfeito.
Desvendando os segredos e mistérios daqueles
Olhos tão profundamente enigmáticos.
Olhares tão inexoravelmente amáveis.
Voz tão viril e doce.
Cheguei ao espelho de água da floresta e disse:
- Vê?
- Vejo!
E ele não sabia quão puro e belo era sua alma e seu perfil.

Vivi

Obs: Esse texto foi feito para nosso amigo Cláudio de Moraes. Pessoa doce, carinhosa, um homem verdadeiro como há muito não existe nesse mundo cão. Agradecemos, desde já a sua existência nesse mundo e nas nossas vidas.

quarta-feira, julho 11, 2007

O Tempo tarda, mas as vezes falha

E aquele conto de contar que tudo estava dito era típido de quem enganava e queria que cressem que tudo que saísse de sua boca, na verdade apenas palavras, fosse verossímel. Signos codificando amores incertos, símbolos identificados como falta de alguém. Um telefonema no meio da noite, e mais um vinho desabrochado na manhã serena e gélida de julho.
- E era o diabo!
Era preciso descobrir onde estava a fechadura para trancar aquelas memórias.
E o Tempo dizia:
- Calma, meu filho, quando eu andar até amanhã você já esquecera da metade.
E dormiu com a camisa de tricoline branca aberta, até o cinto.

Vivi

terça-feira, julho 10, 2007

Uma ponte para o outro dia

- Chega!
Gritou com a mente e o corpo exaustos. Agora aquela decisão era irrevogavelmente sua única forma de sobreviver aquele universo paralelo que criara e que, agora, precisava se libertar.
- Chega!
E o silêncio imperou bravo, sedento, voraz e carnívoro.

Vivi